Muita gente que arranca o cabelo faz isso escondido e passa anos achando que é a única pessoa com esse hábito. Algumas pessoas fazem quase sem perceber, enquanto leem ou olham o celular. Outras sentem uma tensão que só passa quando puxam um fio específico. Depois vem um alívio rápido e, pouco tempo depois, a culpa.
A tricotilomania é uma condição reconhecida, não falta de força de vontade, e tem tratamento.
O que é essa mania
A tricotilomania, também chamada de transtorno de arrancar o cabelo, é uma vontade repetida e difícil de controlar de arrancar os próprios fios, principalmente do couro cabeludo, das sobrancelhas ou dos cílios. Antes costuma crescer uma tensão, e o ato de arrancar traz um alívio passageiro. A pessoa tenta parar várias vezes, mas tem muita dificuldade.
É uma condição de saúde mental reconhecida, que faz parte do grupo do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtornos relacionados. Ela entra na família dos comportamentos repetitivos focados no corpo, ao lado de cutucar a pele e roer as unhas. Não é autolesão: a intenção não é se machucar, e sim aliviar uma tensão ou uma sensação. Costuma começar entre os 10 e os 13 anos, perto da puberdade, e algumas fontes estimam que pode atingir até 4 em cada 100 pessoas.
Pode ser automática, quando a mão vai até o cabelo sem a pessoa notar, ou focada, quando ela procura de propósito um fio específico para se acalmar. Muita gente tem as duas formas.
Gatilhos comuns
- Estresse ou ansiedade
- Tédio ou momentos sem nada para fazer
- Cansaço extremo
- Solidão ou frustração
- Apoiar a cabeça na mão
- Pentear ou mexer no cabelo na frente do espelho
- Sentir um fio com textura diferente
- Ler, estudar ou ficar no celular
Onde ela aparece
- Em casa, principalmente quando a pessoa está sozinha
- Na cama, antes de dormir
- No banheiro, na frente do espelho
- Na mesa de estudo ou de trabalho
- Vendo séries, filmes ou vídeos
- Em época de provas, de vestibular ou de pressão no trabalho
Sinais
No corpo
- Falhas ou áreas com cabelo mais curto e ralo, de formato irregular
- Sobrancelhas ou cílios falhados
- Fios que nascem de novo ásperos e grossos
- Couro cabeludo irritado ou avermelhado nas áreas afetadas
- Desconforto na barriga quando há o hábito de engolir os fios
Na mente
- Tensão que vai aumentando antes de arrancar
- Alívio ou prazer rápido na hora
- Culpa, vergonha ou raiva de si depois
- Sensação de que um fio está errado e precisa sair
- Medo constante de que os outros percebam
O que a pessoa costuma fazer
- Procurar um fio específico pela textura ou pela espessura
- Seguir um ritual, como olhar o fio ou passá-lo nos lábios
- Morder ou mastigar o fio arrancado
- Disfarçar as falhas com penteados, bonés, lenços, maquiagem ou perucas
- Evitar o cabeleireiro, a piscina, o esporte ou momentos de intimidade
- Fazer escondido e negar quando alguém pergunta
O que causa essa mania
Não existe uma causa única, e provavelmente fatores genéticos e do ambiente se somam. É mais comum quando um parente próximo também tem, e as mudanças da puberdade podem ter um papel. Muita gente usa o gesto para lidar com o estresse, a ansiedade, o tédio ou a solidão, e outras pessoas continuam porque a sensação é agradável. Com o tempo, vira um hábito muito aprendido: quanto mais se repete, mais forte fica a vontade. Às vezes aparece junto com ansiedade, depressão ou TOC.
Como pode afetar a sua vida
A vergonha costuma ser o que mais pesa. Muitas pessoas passam anos escondendo as falhas, com medo de que alguém descubra, e acabam deixando de lado a praia, a piscina, os esportes, os encontros ou a ida ao salão. É fácil se sentir muito sozinho com o problema, e a autoestima, o humor e a ansiedade sofrem. No corpo, arrancar o cabelo repetidamente pode machucar a pele e prejudicar o crescimento dos fios. Engolir o cabelo pode formar uma bola no estômago ou no intestino, que precisa de atendimento médico.
O que pode ajudar no dia a dia
- Anotar quando, onde e como a vontade aparece, para conhecer os seus gatilhos
- Manter as mãos ocupadas com uma bolinha antiestresse ou um objeto para mexer
- Fechar a mão com força por alguns instantes até a vontade diminuir
- Criar barreiras simples, como usar boné, touca ou lenço, ou cobrir as pontas dos dedos com curativo adesivo
- Respirar devagar até a urgência passar
- Fazer exercício ou tomar um banho morno para baixar a tensão
- Contar para alguém de confiança, porque o segredo costuma aumentar a ansiedade
Quando procurar ajuda
Vale buscar ajuda se você não consegue parar, se o hábito traz vergonha ou sofrimento, ou se atrapalha os estudos, o trabalho ou os relacionamentos. Um médico ou a Unidade Básica de Saúde (UBS) pode examinar o couro cabeludo para descartar outras causas de queda de cabelo, como uma infecção, e encaminhar você para um psicólogo ou psiquiatra. Se a pele estiver machucada ou com sinais de infecção, procure um médico. Se você costuma engolir os fios, conte isso ao médico mesmo sem sintomas, e procure atendimento logo se tiver dor de barriga ou vômitos. Em crianças, o primeiro passo é o pediatra. Se a tristeza estiver pesada, o CVV atende pelo 188, a qualquer hora.
Como a hipnoterapia pode ajudar
A hipnoterapia trabalha com um estado de relaxamento e atenção focada. Na tricotilomania, ela costuma ser usada para ajudar a pessoa a perceber a vontade mais cedo, principalmente quando o gesto é automático, e para diminuir a tensão que dispara o hábito. Também são usadas sugestões parecidas com as da reversão de hábito, como ensaiar na imaginação a mão parando e escolhendo outra ação. Ela não promete cura. A hipnoterapia não substitui o cuidado médico, e os resultados variam de pessoa para pessoa.
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Veja também: Todas as manias.
Perguntas frequentes
Tricotilomania tem cura?
Não existe solução rápida, mas há tratamento. A terapia de reversão de hábito, um tipo de terapia cognitivo-comportamental, é a abordagem mais usada e ajuda muitas pessoas a arrancar bem menos o cabelo ou a parar. A vontade pode voltar em fases de estresse, e isso não significa fracasso.
Tricotilomania é a mesma coisa que TOC?
Não exatamente. Ela é classificada no grupo do transtorno obsessivo-compulsivo e transtornos relacionados, mas normalmente não há obsessões como no TOC. Ela se parece mais com outros comportamentos repetitivos focados no corpo, como cutucar a pele ou roer as unhas. Algumas pessoas têm as duas condições.
O cabelo cresce de novo depois da tricotilomania?
Em muitos casos, sim, principalmente quando a pessoa para de arrancar, embora no começo os fios possam nascer mais ásperos. Arrancar por muito tempo na mesma área pode prejudicar o crescimento, por isso vale a pena um médico examinar o couro cabeludo.
É normal criança arrancar o cabelo?
Em bebês e crianças pequenas pode acontecer, e muitas vezes é leve e passa sozinho. Se continua, deixa falhas ou a criança come os fios, converse com o pediatra. Dar bronca ou castigar costuma aumentar a tensão; acolher com calma e buscar orientação ajuda mais.
Arrancar o cabelo é uma forma de autolesão?
Não. Embora possa machucar os fios e a pele, a intenção não é se ferir, e sim aliviar uma tensão, uma emoção ou uma sensação. Por isso é considerado um comportamento repetitivo focado no corpo. Se em algum momento surgirem pensamentos de se machucar, busque ajuda na hora: ligue para o SAMU (192) ou converse com o CVV pelo 188.
Leia mais
Mayo Clinic: Tricotilomanía o trastorno de arrancarse el pelo, síntomas y causas · MedlinePlus en español: Tricotilomanía · NHS: Trichotillomania (hair pulling disorder) · Manual MSD Versão Saúde para a Família: Mania de arrancar cabelos (tricotilomania)
