Ninfomania e satiríase (comportamento sexual compulsivo)

Ninfomania e satiríase são palavras antigas usadas para descrever um desejo sexual vivido como impossível de controlar. Hoje os profissionais de saúde mental não usam mais esses termos e falam em transtorno do comportamento sexual compulsivo.

Esta página traz informação geral para pessoas adultas. Quem passa por isso costuma sentir muita vergonha e esconder o problema por anos, mas trata-se de uma questão de saúde que tem tratamento, e não de uma falha de caráter.

O que é essa mania

Ninfomania era o termo usado para mulheres, e satiríase, para homens. As duas palavras caíram em desuso porque carregam preconceito: por muito tempo serviram mais para julgar o desejo, principalmente o das mulheres, do que para descrever um problema de saúde. Ter muito desejo sexual, por si só, não é um transtorno.

A Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, a CID-11, inclui hoje o transtorno do comportamento sexual compulsivo e o coloca entre os transtornos do controle de impulsos. Ele é descrito como um padrão persistente, ao longo de meses, em que a pessoa não consegue controlar impulsos sexuais intensos e repetitivos, o que traz sofrimento importante ou prejuízos sérios na vida. Também se fala em hipersexualidade, compulsão sexual ou vício em sexo. O diagnóstico não se aplica quando o incômodo vem apenas de crenças morais ou religiosas sobre a sexualidade, nem quando o comportamento é explicado por outra causa, como um episódio de mania, um remédio ou uma substância. Pode afetar qualquer pessoa, de qualquer orientação sexual, embora seja descrito com mais frequência em homens.

Gatilhos comuns

  • Estresse, ansiedade ou desânimo
  • Solidão ou sensação de vazio
  • Tédio ou tempo livre sem estrutura
  • Brigas ou tensão no relacionamento
  • Uso de álcool ou outras substâncias
  • Acesso fácil a conteúdo sexual na internet
  • Ficar sozinho com o celular, principalmente à noite

Onde ela aparece

  • Na internet e em aplicativos, a qualquer hora
  • À noite, quando o sono não vem
  • Em casa, em momentos de solidão
  • No trabalho, como uma distração constante
  • Em viagens ou fases longe da rotina de sempre
  • Em períodos de estresse, luto ou grandes mudanças

Sinais

No corpo

  • Inquietação ou tensão difícil de acalmar até agir
  • Alívio rápido seguido de cansaço
  • Dormir mal por ficar acordado até tarde
  • Tensão muscular ou dor de cabeça pelo estresse

Na mente

  • Pensamentos e fantasias sexuais que ocupam boa parte do dia
  • Sensação de que o impulso decide no seu lugar
  • Culpa, vergonha ou arrependimento profundo depois
  • Ansiedade, desânimo ou baixa autoestima
  • Dificuldade de se concentrar em outras coisas

O que a pessoa costuma fazer

  • Tentar diminuir o comportamento sem conseguir
  • Dedicar cada vez mais tempo à atividade sexual ou à busca por ela
  • Usar o sexo para fugir do estresse, da tristeza ou da solidão
  • Continuar mesmo com riscos para a saúde ou problemas sérios
  • Esconder ou mentir sobre o que faz
  • Deixar de lado o trabalho, a família ou os relacionamentos

O que causa essa mania

As causas ainda não são bem conhecidas. Acredita-se que possam influir mudanças nos circuitos de recompensa do cérebro, que com o tempo passam a pedir mais estímulo para sentir o mesmo, e desequilíbrios em substâncias químicas do cérebro ligadas ao humor e ao desejo. Em alguns casos, certas doenças do cérebro ou alguns remédios, como alguns dos usados no tratamento do Parkinson, podem provocar comportamentos sexuais compulsivos. Se isso preocupa você, converse com o seu médico e não pare nem mude nenhum remédio por conta própria.

Alguns fatores podem aumentar o risco: ter depressão, ansiedade ou outro vício, como o jogo, problemas com álcool ou drogas, conflitos familiares ou experiências difíceis ou traumáticas no passado. O acesso imediato a conteúdo sexual na internet e o segredo também podem fazer o problema crescer sem que ninguém perceba.

Como pode afetar a sua vida

Esse problema pode prejudicar o relacionamento amoroso e a convivência em família, principalmente por causa das mentiras. Pode atrapalhar a concentração no trabalho, pesar no bolso e, em alguns casos, trazer problemas com a justiça. Comportamentos de risco aumentam a chance de infecções sexualmente transmissíveis. Muitas pessoas convivem com culpa, vergonha e baixa autoestima, e às vezes surgem a depressão ou a ansiedade. Sem tratamento, a tendência é piorar com o tempo.

O que pode ajudar no dia a dia

  • Conversar com um profissional e seguir o tratamento combinado com ele
  • Contar o que está acontecendo a uma pessoa de confiança, se você se sentir capaz
  • Anotar quando a vontade aparece e o que estava acontecendo, para reconhecer os seus gatilhos
  • Usar ferramentas de bloqueio de conteúdo e deixar o celular fora do quarto à noite
  • Cuidar do sono e ter outras formas de lidar com o estresse, como exercício ou uma caminhada
  • Diminuir o álcool e outras substâncias, que reduzem o controle
  • Fazer exames de saúde sexual na UBS se você estiver preocupado com riscos que correu

Quando procurar ajuda

Vale procurar ajuda se você sente que perdeu o controle do seu comportamento sexual, se isso causa sofrimento, se está prejudicando os seus relacionamentos ou o seu trabalho, ou se você esconde o que faz. Converse com um médico, procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima ou busque um psicólogo, um psiquiatra ou um profissional de sexologia clínica. A psicoterapia, principalmente a terapia cognitivo-comportamental, é o tratamento mais comum; grupos de apoio podem ajudar, e qualquer remédio deve ser indicado por um médico.

Se você se sentir sem saída ou muito para baixo, o CVV atende pelo 188, a qualquer hora. Se tiver pensamentos de se machucar ou de machucar outra pessoa, ligue para o SAMU (192).

Como a hipnoterapia pode ajudar

A hipnoterapia trabalha em um estado de relaxamento profundo e atenção focada. No comportamento sexual compulsivo, ela é usada junto com o tratamento psicológico ou médico, nunca no lugar dele. Costuma se concentrar em perceber a vontade mais cedo, diminuir a tensão que vem com ela e ensaiar na imaginação outras respostas diante dos gatilhos, de forma parecida com as técnicas de reversão de hábitos. A hipnoterapia não substitui o cuidado médico, e os resultados variam de pessoa para pessoa.

Veja também: Todas as manias.

Perguntas frequentes

O que é ninfomania?

É um termo antigo para descrever, em mulheres, um desejo sexual vivido como impossível de controlar. Hoje ele não é usado na medicina, porque carrega muito preconceito. O que se reconhece é o transtorno do comportamento sexual compulsivo, que pode afetar qualquer pessoa.

O que é satiríase?

É o termo antigo equivalente para homens. Assim como ninfomania, caiu em desuso e foi substituído pela ideia de comportamento sexual compulsivo.

Ter muito desejo sexual é doença?

Não. Ter muito desejo, por si só, não é um problema de saúde. Fala-se em transtorno quando a pessoa perde o controle dos impulsos por um tempo longo e isso traz sofrimento importante ou prejuízos sérios na vida.

Vício em sexo existe?

A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno do comportamento sexual compulsivo, mas o classifica entre os transtornos do controle de impulsos, e não entre os vícios, porque ainda se discute se ele funciona como as outras dependências. Muitas pessoas e serviços continuam usando o nome vício em sexo.

Compulsão sexual tem cura?

Com tratamento, muitas pessoas recuperam o controle e melhoram os relacionamentos e o bem-estar. Sem ajuda, o problema costuma piorar, por isso vale procurar um profissional de saúde mental o quanto antes.

Leia mais

Mayo Clinic: Conducta sexual compulsiva, síntomas y causas · World Psychiatry (Kraus e outros, 2018): Compulsive sexual behaviour disorder in the ICD-11