A erotomania é a crença firme de uma pessoa de que alguém está apaixonado por ela, mesmo sem nenhuma prova e mesmo quando esse alguém nega. Muitas vezes é uma pessoa famosa ou em posição social mais alta, que ela mal conhece.
O nome lembra uma paixão intensa, mas na medicina descreve outra coisa: um delírio, ou seja, uma ideia falsa vivida como totalmente verdadeira. Esta página explica com respeito o que é, como se reconhece e que ajuda existe, tanto para quem vive isso quanto para a família e as pessoas por perto.
O que é essa mania
A erotomania, também chamada de síndrome de De Clérambault por causa do psiquiatra francês que a descreveu, é um tipo de transtorno delirante. Nesse transtorno, a pessoa mantém uma ou mais crenças falsas com total convicção por pelo menos um mês, mesmo quando os fatos mostram o contrário. No tipo erotomaníaco, a crença central é a de que alguém a ama em segredo. Fora desse tema, a pessoa pode pensar com clareza, trabalhar e levar uma vida aparentemente normal.
Fala-se em erotomania primária quando ela aparece sozinha, e em secundária quando surge dentro de outra condição, como a esquizofrenia, o transtorno bipolar ou uma depressão grave. É rara e há pouca pesquisa sobre ela, quase toda baseada em relatos de casos isolados. Não é o mesmo que estar muito apaixonado: nesse caso, a pessoa consegue rever a ideia diante da realidade.
Gatilhos comuns
- Um cumprimento, um sorriso ou um gesto gentil entendido como sinal de amor
- Aparições públicas de uma pessoa famosa, na TV ou em shows
- Posts e stories nas redes sociais lidos como recados escondidos
- A recusa da outra pessoa, que às vezes reforça a crença
- Uma recaída de outra condição de saúde mental, na forma secundária
- O uso de algumas drogas
Onde ela aparece
- Nas redes sociais, onde é fácil seguir e mandar mensagens a desconhecidos
- Com figuras públicas, como artistas, jogadores de futebol ou apresentadores de TV
- No trabalho, em relação a um colega ou a um chefe
- Na relação com um profissional, como um médico ou um professor
- No bairro ou no condomínio, com alguém que a pessoa vê com frequência
- Às vezes, com alguém que a pessoa nunca viu pessoalmente
Sinais
No corpo
- Poucos sinais físicos próprios do transtorno
- Tensão ou inquietação quando não há notícias da outra pessoa
- Dormir pouco por passar horas acompanhando essa pessoa
- Cansaço por causa da preocupação constante
Na mente
- Certeza absoluta de que a outra pessoa a ama
- Crença de que essa pessoa manda sinais ou mensagens em segredo
- Explicar as recusas como timidez, prova de amor ou forma de proteger a relação
- Pensar nessa pessoa boa parte do dia
- Irritação ou raiva quando alguém questiona a crença
O que a pessoa costuma fazer
- Escrever, ligar ou mandar presentes várias vezes
- Buscar encontros que a outra pessoa não quer
- Acompanhar de perto tudo o que ela posta nas redes sociais
- Falar com outras pessoas sobre o suposto relacionamento
- Insistir mesmo depois de recusas claras
O que causa essa mania
A causa exata não é conhecida. Acredita-se que mudanças na química do cérebro possam influenciar e, na forma secundária, outra doença de base, como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar. Também há casos descritos ligados a lesões na cabeça, doenças neurológicas ou ao uso de algumas drogas. As redes sociais não causam a erotomania, mas facilitam observar e contatar pessoas antes inacessíveis, o que pode alimentar a crença. Nada disso é uma escolha ou um defeito de caráter: um delírio não se corrige com força de vontade nem com argumentos.
Como pode afetar a sua vida
Quem vive com erotomania geralmente não vê um problema, porque para essa pessoa a relação é real. Mesmo assim, a crença pode tomar muito tempo e energia, e trazer frustração, tristeza ou raiva quando a outra pessoa não responde como esperado. A convivência com a família e os amigos pode ficar tensa, e a insistência pode levar à perda de um emprego ou a problemas com a Justiça, porque procurar ou seguir alguém que não quer esse contato pode ser considerado perseguição. Para quem recebe essa atenção, também é muito difícil, com medo e perda de privacidade.
O que pode ajudar no dia a dia
- Se já existe tratamento, ir às consultas e tomar os remédios do jeito que foram receitados, sem parar nem mudar por conta própria
- Cuidar da relação de confiança com o profissional, mesmo com dúvidas sobre o diagnóstico
- Manter horários regulares de sono, refeições e atividades
- Evitar álcool e drogas
- Para a família: ouvir sem zombar e sem discutir a crença, mas também sem confirmá-la
- Para a família: incentivar com calma uma consulta e oferecer companhia para ir junto
- Se alguém entra em contato ou segue você sem que você queira: não responder, guardar as mensagens e pedir apoio às autoridades
Quando procurar ajuda
Vale buscar a avaliação de um médico ou de um psiquiatra quando uma pessoa mantém por semanas a certeza de um relacionamento amoroso que a outra parte nega, e isso começa a prejudicar a vida dela ou a levá-la a insistir no contato. Muitas pessoas com um delírio não sentem que precisam de ajuda, então o primeiro passo costuma vir da família, que pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um profissional de saúde mental para saber como se aproximar. Quando necessário, a UBS pode encaminhar para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
Se você recebe atenção que não quer, mensagens sem parar ou está sendo seguido, o mais seguro é contar para pessoas de confiança e procurar a polícia. Se houver ameaça ou risco imediato, ligue para a Polícia Militar (190). Se alguém parece perder o contato com a realidade ou fala em se machucar ou machucar outras pessoas, ligue para o SAMU (192). Se o ânimo estiver muito baixo, o CVV atende pelo 188, a qualquer hora.
E a hipnoterapia?
A hipnoterapia não é um tratamento para a erotomania e não é indicada enquanto existem crenças delirantes. A ajuda adequada é um psiquiatra ou uma equipe de saúde mental. Mais adiante, e só se o profissional responsável pelo tratamento concordar, algum trabalho de relaxamento pode ser considerado como apoio.
Veja também: Todas as manias.
Perguntas frequentes
O que é a síndrome de De Clérambault?
É outro nome da erotomania. Vem do psiquiatra francês que a descreveu no começo do século XX e se refere à crença delirante de que outra pessoa, muitas vezes em posição mais alta, está apaixonada por quem tem o transtorno.
Erotomania é a mesma coisa que ser obcecado por alguém?
Não. Uma pessoa muito apaixonada ou fixada em alguém consegue aceitar que o sentimento não é recíproco quando a realidade mostra isso. Na erotomania, a crença é um delírio: continua mesmo quando a outra pessoa nega, e pode até se fortalecer com a recusa.
Erotomania tem cura?
Costuma durar bastante tempo, e há poucos estudos. Os remédios antipsicóticos podem ajudar, embora nem sempre reduzam os sintomas, e na forma secundária também se trata a doença de base. Uma boa relação com o psiquiatra é fundamental para manter o tratamento.
Como ajudar um familiar que acha que alguém está apaixonado por ele?
Discutir a crença raramente funciona e costuma aumentar a tensão. Ajuda mais ouvir com calma, não confirmar a ideia, mostrar preocupação com o bem-estar da pessoa e incentivar uma consulta médica. A família também pode pedir orientação na UBS ou a um profissional de saúde mental.
O que fazer se alguém com erotomania entra em contato comigo ou me segue?
O mais seguro é não responder, guardar as mensagens e outros registros, contar para pessoas de confiança e procurar a polícia. Se você se sentir em perigo, ligue para a Polícia Militar (190).
Leia mais
Manual MSD Versão Saúde para a Família: Transtorno delirante · Medical News Today: Erotomania, causes, symptoms, diagnosis and treatment · Psilogos: Conceptualizando erotomania primária e secundária
