Contar os degraus da escada ou as letras de uma placa pode ser um costume inocente. Para algumas pessoas, porém, contar vira uma obrigação. Se perdem a conta, precisam começar de novo, e se um número não fecha, sentem que algo ruim pode acontecer.
Esta página explica o que é essa necessidade, por que é tão difícil largar e que tipo de ajuda existe.
O que é essa mania
Aritmomania é um termo antigo para a necessidade de contar coisas, passos, objetos ou letras, ou de fazer contas de cabeça, para aliviar a ansiedade. Não é um diagnóstico próprio nas classificações atuais. Hoje os profissionais falam em compulsões de contagem, que muitas vezes fazem parte do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). No TOC, pensamentos ou medos indesejados (obsessões) causam angústia, e a pessoa sente que precisa repetir certos atos, visíveis ou só na mente (compulsões), para se aliviar.
Contar pode servir para sentir que algo foi bem feito, para terminar uma tarefa em um número que parece bom ou seguro, ou para fugir de um número que parece dar azar. Muitas vezes a contagem acontece só na cabeça e ninguém percebe. Gostar de números ou contar de vez em quando não é um problema. Há pouca pesquisa sobre a contagem separadamente, então o que se sabe vem principalmente dos estudos sobre o TOC em geral.
Gatilhos comuns
- Subir ou descer escadas
- Andar na rua ou por um corredor
- Tomar banho, se vestir ou se arrumar
- Ler placas, placas de carro ou textos
- Apagar luzes ou fechar portas
- Um pensamento desagradável ou uma preocupação
- Números que parecem dar azar
- Estresse, cansaço ou grandes mudanças
Onde ela aparece
- Em casa, durante rotinas como o banho ou a hora de deitar
- Na rua, ao caminhar
- Na escola ou no trabalho, ao ler ou escrever
- Na cama, antes de dormir
- No ônibus, no metrô ou em filas de espera
- Em fases de estresse, provas ou vestibular
Sinais
No corpo
- Tensão quando a contagem é interrompida
- Inquietação até chegar ao número certo
- Cansaço mental no fim do dia
- Dificuldade para pegar no sono
- Alívio curto ao terminar de contar
Na mente
- Sensação de que algo ruim vai acontecer se não contar
- Números vividos como bons ou ruins
- Necessidade de que algo pareça certo ou completo
- Dúvida se contou direito
- Dificuldade para se concentrar em outra coisa
- Saber que não faz sentido e mesmo assim não conseguir parar
O que a pessoa costuma fazer
- Contar passos, objetos, letras ou palavras
- Repetir uma ação um número fixo de vezes
- Começar de novo se perder a conta
- Fazer contas de cabeça com os números que vê
- Evitar certos números em datas, horários ou quantidades
- Esconder a contagem por vergonha
O que causa essa mania
Não se conhece uma causa única. No TOC, os genes têm influência, por isso ele costuma aparecer em várias pessoas da mesma família, e também diferenças no funcionamento do cérebro que fazem certos pensamentos ficarem presos. Fases de muito estresse ou acontecimentos traumáticos podem aumentar o risco.
Depois que a contagem aparece, ela se mantém por um ciclo. Contar alivia a angústia por um momento, a mente conclui que contar era necessário e, da próxima vez, a necessidade volta mais forte. Com o tempo, os rituais tendem a se multiplicar e a pedir cada vez mais tempo e energia.
Como pode afetar a sua vida
A contagem pode roubar muita atenção. Ler, acompanhar uma aula ou seguir uma conversa fica difícil quando a mente está ocupada contando, e tarefas simples demoram mais quando precisam ser repetidas. Algumas pessoas se atrasam porque precisam recomeçar uma rotina, ou evitam atividades por causa dos números envolvidos. Como costuma ser invisível, muita gente vive isso sozinha e com vergonha, e pode passar anos sem contar a ninguém. Se o ânimo estiver muito baixo, conversar com alguém de confiança pode ser um primeiro passo, e o CVV atende pelo 188, a qualquer hora.
O que pode ajudar no dia a dia
- Notar quando aparece a vontade de contar e o que a dispara, sem se julgar
- Lembrar que contar alivia só por um tempo e que a angústia também baixa sozinha se você der tempo a ela
- Tentar, se isso for possível para você, deixar uma contagem sem terminar e observar o que acontece
- Praticar uma respiração lenta quando a tensão subir
- Conversar com alguém de confiança em vez de esconder
- Cuidar do sono e diminuir o ritmo em fases de muito estresse
- Ter paciência consigo, porque as mudanças levam tempo
Quando procurar ajuda
Vale buscar ajuda se contar toma muito do seu tempo, causa angústia ou atrapalha os estudos, o trabalho, o sono ou as relações. Converse com um médico, procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um psicólogo ou psiquiatra. O tratamento mais usado é a exposição com prevenção de resposta, um tipo de terapia cognitivo-comportamental em que se aprende a tolerar a angústia sem fazer o ritual, às vezes junto com medicação indicada por um médico. Se for uma criança ou um adolescente, o ideal é que a família converse com o pediatra ou com um profissional de saúde mental. Se surgirem pensamentos de se machucar, ligue para o SAMU (192).
Como a hipnoterapia pode ajudar
A hipnoterapia trabalha com um estado de relaxamento e atenção focada. Em hábitos como a contagem repetida, ela costuma ser usada para perceber mais cedo a vontade de contar, diminuir a tensão de fundo e ensaiar na imaginação como tolerar uma conta que fica sem terminar. Também se usam sugestões que ajudam a mudar a resposta automática, na linha das técnicas de reversão de hábito. A hipnoterapia não substitui o cuidado médico nem o tratamento psicológico, e os resultados variam de pessoa para pessoa.
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Fabiana de Siqueira, hipnoterapeuta
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Veja também: Todas as manias.
Perguntas frequentes
Contar tudo é sintoma de TOC?
Pode ser, mas nem sempre. Contar é uma das compulsões frequentes do TOC, principalmente quando a pessoa conta para acalmar um medo, gasta muito tempo com isso e sente angústia. Contar por costume ou por gosto, sem sofrimento, é outra coisa. Só um profissional pode avaliar.
Por que sinto que preciso chegar a um número exato?
No TOC é comum sentir que uma tarefa só está bem terminada quando acaba em um número que parece bom ou seguro, ou que algo ruim pode acontecer com um número que dá azar. A sensação é muito real, mesmo quando a pessoa sabe que não faz sentido, e costuma melhorar com tratamento.
Aritmomania tem cura?
O TOC costuma ser de longa duração, com fases melhores e piores, mas muitas pessoas melhoram bastante com tratamento. A exposição com prevenção de resposta, às vezes junto com medicação indicada por um médico, ajuda a contagem a perder força.
É normal uma criança contar tudo?
Muitas crianças contam brincando ou enquanto aprendem os números, e isso é normal. Vale conversar com o pediatra ou com um profissional se a criança fica angustiada quando não pode contar, repete rituais que tomam tempo ou tem medo de que algo ruim aconteça se não fizer.
Qual a diferença entre aritmomania e gostar de números?
Gostar de matemática, de dados ou de jogos com números é um interesse. Na aritmomania, contar não dá prazer, parece obrigatório e deixa angústia quando não é feito. O que pesa é o sofrimento e o quanto isso atrapalha a vida.
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