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Muita gente guarda coisas por via das dúvidas ou por carinho, e isso é normal. Para algumas pessoas, porém, se desfazer de um papel, de uma sacolinha de mercado ou de um pote vazio causa uma angústia tão forte que elas acabam ficando com tudo, e com os anos os objetos tomam a mesa, o corredor e até a cama.
Esse medo tem nome, é descrito pelos profissionais de saúde e tem tratamento. Entender o que acontece ajuda a falar do assunto sem culpa nem vergonha.
Entendendo esse medo
A disposofobia é um medo intenso de jogar fora ou se desfazer de objetos, mesmo os que têm pouco ou nenhum valor. É um nome pouco usado na prática clínica, e há pouca pesquisa sobre esse medo especificamente. O que está bem descrito é o transtorno de acumulação compulsiva, uma condição de saúde mental reconhecida em que a dificuldade de descartar coisas é o traço central.
Nesse transtorno, a pessoa sente um mal-estar forte só de pensar em se desfazer de algo, e a necessidade de guardar é tão grande que os objetos se acumulam até que partes da casa deixam de poder ser usadas. Algumas pessoas reconhecem que têm um problema e outras não enxergam assim. Em nenhum caso se trata de preguiça ou falta de força de vontade.
Gatilhos comuns
- Decidir o que fazer com papéis, contas e correspondência
- Arrumar um armário ou uma gaveta
- Ver alguém jogar algo fora sem perguntar
- Separar o lixo reciclável
- Objetos que lembram uma pessoa querida
- A ideia de que algo pode servir mais tarde
- Uma mudança de casa
- Brindes e promoções difíceis de recusar
Onde ele aparece
- Em casa, principalmente em quartos que não são mais usados
- Garagem, quartinho dos fundos e área de serviço
- Dentro do carro
- Na mesa e no local de trabalho
- Ao esvaziar a casa de um familiar que faleceu
- Ao dividir a casa com o parceiro, os filhos ou os pais
- Arquivos, e-mails e fotos no computador e no celular
Sintomas
No corpo
- Aperto no estômago ao tentar jogar algo fora
- Coração acelerado
- Inquietação e suor
- Cansaço pelo esforço de decidir
- Mal-estar que dura horas depois de se desfazer de algo
Na mente
- Medo de precisar de algo mais tarde e não ter
- Sensação de perder uma lembrança ou uma parte de si
- Culpa por desperdiçar
- Muita dificuldade para tomar decisões
- Sentir que os objetos dão segurança ou companhia
- Vergonha do estado da casa
O que a pessoa costuma fazer
- Guardar papéis, roupas, embalagens ou lembranças sem uma ordem clara
- Adiar sempre o momento de arrumar
- Pegar de volta o que outras pessoas jogaram fora
- Mudar objetos de lugar sem decidir o que fazer com eles
- Trazer coisas novas mesmo sem espaço
- Evitar que outras pessoas entrem em casa
O que causa esse medo
Não se conhece uma causa única. Estuda-se o papel da genética, do funcionamento do cérebro e de situações muito estressantes, como um luto, um divórcio ou ter perdido os pertences em um incêndio. Ter um familiar próximo com o mesmo problema aumenta o risco, assim como certas dificuldades para decidir ou se organizar. Costuma começar na adolescência, de forma leve, e tende a aumentar com os anos. Cada vez que a pessoa decide guardar algo em vez de jogar fora, sente alívio, e esse alívio reforça o hábito. Com frequência aparece junto com depressão, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ou TDAH.
Como pode afetar a sua vida
Com o tempo, a cozinha, o banheiro ou a cama podem ficar tão ocupados que deixam de servir para o que foram feitos. Isso aumenta o risco de quedas, de incêndio e de problemas de higiene ou de pragas, como baratas e ratos. Muitas pessoas deixam de receber amigos ou parentes por vergonha, o que leva à solidão e ao isolamento. Brigas com a família ou com os vizinhos e o síndico são comuns, e às vezes surgem dificuldades no trabalho ou com a moradia.
O que pode ajudar no dia a dia
- Começar por uma área bem pequena, como uma gaveta ou uma prateleira, e não pela casa inteira
- Manter livres os corredores, as saídas e o espaço onde você cozinha, por segurança
- Antes de trazer algo novo, perguntar a si mesmo onde vai guardar
- Treinar uma respiração lenta, soltando o ar mais devagar do que puxa, quando a angústia de decidir aparecer
- Pedir a alguém de confiança que acompanhe você sem decidir no seu lugar
Quando procurar ajuda
Vale buscar ajuda se os objetos acumulados impedem o uso de partes da casa, se é muito difícil se desfazer de quase qualquer coisa ou se isso causa conflitos ou isola você. Quanto antes, melhor. Converse com um médico, procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um psicólogo ou psiquiatra, de preferência com experiência em acumulação compulsiva. Se houver um risco sério para a saúde ou a segurança, como saídas bloqueadas ou perigo de incêndio, peça apoio à prefeitura, por meio da assistência social ou da vigilância sanitária. Em uma emergência, ligue para o SAMU (192) ou, em caso de incêndio, para os Bombeiros (193). Se você estiver se sentindo para baixo ou muito sozinho, o CVV atende pelo 188, a qualquer hora.
Como a hipnoterapia pode ajudar
A hipnoterapia trabalha em um estado de relaxamento profundo e atenção focada. No medo de jogar coisas fora, ela costuma ser usada para diminuir a angústia que aparece na hora de decidir e para ensaiar na imaginação o momento de soltar um objeto enquanto o corpo continua tranquilo. Também é comum explorar o significado emocional de certos objetos. Quando há um transtorno de acumulação compulsiva, ela deve ser usada como complemento do tratamento indicado por um profissional de saúde mental. A hipnoterapia não substitui o cuidado médico, e os resultados variam de pessoa para pessoa.
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Fabiana de Siqueira, hipnoterapeuta
Fabiana de Siqueira é hipnoterapeuta e atende pelo Zoom pessoas que falam português, no Brasil e em outros países. Se esse medo está pesando na sua vida, você pode marcar uma conversa inicial gratuita com ela para contar o que sente e entender se a hipnoterapia faz sentido para você. Conheça a história da Fabiana.
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Perguntas frequentes
O que é disposofobia?
É o medo intenso de jogar fora ou se desfazer de objetos, mesmo os de pouco valor. Quase não há estudos sobre esse nome especificamente. O quadro reconhecido pelos profissionais é o transtorno de acumulação compulsiva, em que a dificuldade de descartar coisas leva a acumulá-las até que os espaços da casa deixam de poder ser usados.
Qual a diferença entre colecionar e acumular?
Quem coleciona busca objetos específicos, organiza e exibe, e isso não traz angústia nem problemas no dia a dia. Na acumulação compulsiva, a pessoa guarda coisas muito variadas sem ordem clara, se desfazer delas causa grande sofrimento e a bagunça acaba afetando a casa, a saúde ou as relações.
É a mesma coisa que síndrome de Diógenes?
Não exatamente. No dia a dia, esse nome às vezes é usado para qualquer casa com muito acúmulo, mas costuma se referir a um quadro mais amplo, com descuido grave com a própria higiene e isolamento. A dificuldade persistente de descartar objetos tem nome clínico próprio, transtorno de acumulação compulsiva. Só um profissional pode avaliar o que acontece em cada caso.
Como ajudar um familiar que não consegue jogar nada fora?
Costuma ajudar conversar com calma, sem deboche nem bronca, e incentivar a pessoa a procurar um profissional. Jogar as coisas dela fora sem o seu acordo costuma causar muita angústia e não resolve o problema de fundo. Se houver perigo sério para a saúde ou a segurança, vale pedir apoio aos serviços da prefeitura.
Acumulação compulsiva tem tratamento?
Sim. A terapia cognitivo-comportamental focada na acumulação costuma ser a primeira opção e ajuda a tomar decisões, a se desfazer de objetos e a resistir à vontade de trazer coisas novas. Como muitas pessoas têm dificuldade de aceitar a mudança, o trabalho é feito no ritmo delas. Um profissional de saúde mental pode avaliar se são necessários outros apoios.
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